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	<title>Leonardo Milani &#187; norma</title>
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	<description>Traduções para português e francês</description>
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		<title>Dilma Roussef: President**a** do Brasil</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 05:22:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Milani</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>
		<category><![CDATA[norma]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao redigir um post recente, peguei-me novamente a escrever a palavra &#8220;presidenta&#8221; para me referir a Dilma Roussef. Grande polêmica no início do ano 2011, percebo que nunca abordei a questão de saber se devemos adotar &#8220;presidente&#8221; ou &#8220;presidenta&#8221; para nos referir a Dilma Roussef. &#160; Pois acreditem que esta foi uma polêmica muito séria, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao redigir um post recente, peguei-me novamente a escrever a palavra &#8220;presidenta&#8221; para me referir a Dilma Roussef. Grande polêmica no início do ano 2011, percebo que nunca abordei a questão de saber se devemos adotar &#8220;presidente&#8221; ou &#8220;presidenta&#8221; para nos referir a Dilma Roussef.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pois acreditem que esta foi uma polêmica muito séria, que dividiu as opiniões e deu o que falar em lista de profissionais de língua.</p>
<p>Eu vejo este debate como a confluência de duas questões fundamentais:<br />
1) o rigor da língua (dicionário, gramática, etimologia,&#8230;)<br />
2) o uso e a validade (e validação) deste</p>
<p>Os <span style="text-decoration: underline;">argumentos aue priorizam o rigor da língua</span> tendem a valorizar o uso de presidente:</p>
<p>Meu colega Florisvaldo Machado, em determinado debate em listas, levantou o argumento inicial que me parece indiscutível: no <strong>plano etimológico</strong>, dar a um substantivo masculino terminado por <strong>-ente</strong> uma marca de feminino <strong>-enta</strong> é sem sentido. Em quase nenhuma outra palavra terminado por -ente isso ocorre: não há videnta, pacienta, adolescenta, gerenta, clienta, atendenta,&#8230;<br />
(MAS: &#8220;chefa&#8221; e &#8220;parenta&#8221; são dicionarizados, bem como&#8230; &#8220;presidenta&#8221;, sendo porém considerado informal)</p>
<p>É justamente o que Luiz Costa Pereira Junior destaca, em <a title="Artigo de Luis Costa Pereira Junior sobre o uso de PresidentA" href="http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12196">seu excelente artigo</a>, muito abrangente:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>(&#8230;) a equipe do Lexikon, que atualiza o dicionário Aulete, avalia que os substantivos e adjetivos de dois gêneros terminados em -ente não apresentam flexão de gênero terminado em -a. Por isso, não dizemos &#8220;gerenta&#8221;, &#8220;pacienta&#8221;, &#8220;clienta&#8221; etc. Caso fosse &#8220;presidenta&#8221;, por coerência, diríamos &#8220;a presidenta está contenta&#8221; e &#8220;o presidente está contento&#8221;, exemplifica o grupo.</em></p>
<p>Luiz Costa Pereira Junior aponta ainda:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Ernani Pimentel diz que &#8220;presidenta&#8221; pertence às palavras &#8220;andróginas, hermafroditas ou bissexuadas&#8221;, como &#8220;pianista&#8221;, &#8220;jovem&#8221;, &#8220;colega&#8221;, comuns de dois gêneros. Terminadas em -nte (amante, constante, docente, poluente, ouvinte&#8230;), não usam o / a para indicar gênero. O fator linguístico a limitar essa &#8220;androginia&#8221;, tornando a palavra só masculina ou feminina, é o artigo (o amante, a amante); o substantivo (líquido ou água poluente); o pronome a ela ligado (nosso ou nossa contribuinte). Ao oficializar &#8220;presidenta&#8221;, diz Pimentel, arrisca-se a &#8220;despender energia&#8221;, criando &#8220;amanta&#8221;, &#8220;constanta&#8221;, &#8220;docenta&#8221;, &#8220;poluenta&#8221;, &#8220;ouvinta&#8221;&#8230;</em>(&#8230;)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por outro lado, é tendência cada vez maior de que o uso deve predominar. E embora isto faça prevalecer a adoção do uso de president<span style="text-decoration: underline;"><strong>a</strong></span>, tampouco aqui todo mundo concorda:</p>
<p>Apostando na <a title="Presidência argumenta com base na ambivalência de Presidente e Presidenta" href="http://www2.planalto.gov.br/presidenta/uso-da-palavra-presidenta">ambivalência dos dois vocábulos</a> (president<strong>e</strong> e president<strong>a</strong>), aliás de forma um pouco simplista (evocar a &#8220;norma culta&#8221; e se ater a discutir se o termo é ou não dicionarizado é uma ofensa à gramática), a Presidência argumenta a favor da escolha president<strong>a</strong>. No site em que apresenta o cargo, estampa o título orgulhosamente: President<span style="text-decoration: underline;"><strong>a</strong></span>. E começa o texto assim:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Primeira mulher a se tornar President<span style="text-decoration: underline;"><strong>e</strong></span> da República do Brasil, Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947, na cidade de Belo Horizonte (MG).</em><br />
(o site passa por constantes mudanças, portanto se não encontrarem mais este texto lá, significa que foi alterado, como me parece que deveria ser)</p>
<p>Não vamos dizer que ajudou, né?</p>
<p>Por <strong>comparação com outros idiomas latinos</strong>, principalmente o espanhol pela proximidade (por vezes enganosa&#8230;), buscou-se também mostrar regras já validadas para aprovar uma ou outra escolha. Por exemplo, recordou-se a polêmica exigência da presidenta argentina de ser chamada: &#8220;la Presidenta Kirchner&#8221;.</p>
<p>Os <strong>períodicos e principais canais de informação</strong> passaram a servir como autoridades que justificariam o uso; mas até hoje, estes não conseguiram se pôr de acordo entre si: a <a title="Folha mantém &quot;presidentE&quot;" href="http://www1.folha.uol.com.br/poder/823593-folha-adotara-presidente-para-se-referir-a-dilma.shtml">Folha de São Paulo não arredou de president<strong>e</strong></a> (a não ser <a title="Folha usa presidentA de forma debochada" href="http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/1003091-uma-presidenta-na-europa.shtml">de forma debochada</a>), enquanto a <a title="Voz do Brasil adota PresidentA" href="http://cafe.ebc.com.br/tpl_capa">&#8220;Voz do Brasil&#8221; adotou president<strong>a</strong></a> (e é um canal oficial).</p>
<p>O <strong>uso passado</strong> poderia, ao contrário do esperado, justificar o feminino em -ente, como argumenta Sérgio Nogueira em seu blog <a title="Blog Dicas de Português - Sérgio Nogueira - PresidentA" href="http://g1.globo.com/platb/portugues/2010/11/01/a-presidente-ou-presidenta/">Dicas de Português</a>:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>É bom lembrar que a acadêmica Nélida Piñon, quando eleita, sempre se apresentou como a primeira PRESIDENTE da Academia Brasileira de Letras. Patrícia Amorim, desde sua eleição, sempre foi tratada como a presidente do Flamengo.</em></p>
<p>E pior. O <strong>desuso futuro</strong> pode ser determinante, como já foi com outras palavras. Ou seja, mesmo se aceitamos &#8220;presidenta&#8221;, resta a saber se vai vingar de fato ou se só vai ficar lá no dicionário (e.g., o caso de &#8220;chefa&#8221;, que não é usado para mulheres que chefiam). Ora, justamente, o gramático Ataliba de Castilho aponta que:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Há &#8220;soldada&#8221;, &#8220;sargenta&#8221;, &#8220;coronela&#8221;, &#8220;capitã&#8221; e &#8220;generala&#8221;. Mas o Exército, ele mesmo, evita adotá-las.</em></p>
<p>O mesmo Ataliba levanta a interessante questão da <strong>ressignificação do vocábulo &#8220;presidente&#8221;</strong> ao adotarmos &#8220;presidenta&#8221;. Até então, sempre tivemos homem na presidência e &#8220;presidente&#8221; era, de fato, uma palavra neutra que designaria aquele &#8211; ou aquela &#8211; que ocupasse o cargo presidencial. Se hoje passamos a dizer que Dilma é a Presidenta do Brasil, &#8220;presidente&#8221; vai passar a designar unicamente homens que ocupem a presidência. E talvez esta ressignificação não se atenha à Presidência da República e passe a se aplicar a qualquer presidência (de uma empresa, por exemplo).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na selva de prós e contras muitas vezes procedentes, fato é que o profissional de idiomas, nomeadamente o tradutor e o intérprete, precisa fazer esta escolha fatal: presidente, ou presidenta?</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Fato 1</span>: o PL 210/55 (veja figura abaixo que apresenta uma versão escaneada do texto original), que virou a Lei Ordinária federal 2.749, de 1956, do senador Mozart Lago, determina o uso oficial da forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Fato 2</span>: a Presidência optou por Presidenta. E em um evento hipotético em que eu tenha que interpretar para o português algo dirigido à Presiden&#8230;ta, eu não ousaria dizer &#8220;Excelentíssima Senhora Presiden<span style="text-decoration: underline;"><strong>te</strong></span>, é com satisfação&#8230;&#8221;. Mesmo ela não estando presente (presenta?), entendo que o fato da Presidência ter optado por &#8220;presidenta&#8221; cria uma certa expectativa da audiência, que pode estranhar o uso de &#8220;presidente&#8221; para se referir a Dilma Roussef.</p>
<p>Assim, fazer questão de adotar president**a**, correto ou não (e isso pode nunca ser esclarecido de forma definitiva), é uma questão evidentemente política, de afirmação da ascensão das mulheres ao poder e da igualdade de sexos. É tão preponderante quanto o <em>background</em> popular do Lula, que conquistou não apenas 3 eleitorados nacionais (por que convenhamos que o pleito de 2010 também o teria eleito com facilidade), como também o respeito internacional. O resultado foi, no caso dele, que poucos o chamavam pelo sobrenome no exterior: &#8220;Monsieur da Silva&#8221;, seria engraçado, ao passo que sempre vi Fernando Henrique Cardoso ser chamado de &#8220;Monsieur Cardoso&#8221; lá fora. Não há gramática que legitime estas escolhas. O uso traz uma marca da percepção popular sobre aquilo que está sendo falado, um sinal de como o emissor da mensagem compreende (interpreta&#8230;) o que diz.</p>
<p>Pois não adianta paladinar em (suposta) defesa da pureza do idioma, se o que está em jogo é a igualdade dos sexos no Brasil*. Em tese, se este tipo de afirmação pode mudar a posição das mulheres na sociedade brasileira, o &#8220;erro&#8221; vale a pena e a Presidência fez a escolha acertada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>_____________________</p>
<p style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: 12px; line-height: normal;"><strong>(*</strong>) = isto dito, não são poucos aqueles que argumentam que fazer esta diferenciação terá o efeito contrário do esperado: chamando a atenção para a diferença, a Presidência optou por, afinal, discriminar. É um argumento com o qual concordo, mas só o tempo e o uso podem mostrar se este cenário se concretiza.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="alignleft" style="border: 1px solid black; margin-right: 10px;" src="http://milanitraducao.com/wp-content/uploads/2012/01/PL-210-55.jpg" alt="Projeto de Lei 210/55" width="302" height="638" /></p>
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