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Para não conseguir trabalho…

Como freelancers, muitas vezes conversamos entre colegas sobre as estratégias e os procedimentos que adotamos para conquistar clientes potenciais.
Ontem, recebi uma mensagem que exemplifica muito bem como fazer para não conquistar clientes ou trabalhos. Principalmente, me permitiu refletir sobre o posicionamento profissional que nunca devemos deixar de ter perante nossos clientes, o mercado e nós mesmos como profissionais.

Tendo recebido este mail, perguntei-me porque o julgava tão ineficaz e tão pouco convidativo àquilo que, em tese, buscaria: um trabalho ou uma colaboração. Acabei chegando a uma lista de problemas que apresento a seguir, como reflexão de estratégia comercial.

Antes, duas observações:
1) ocultei voluntariamente qualquer informação que possa permitir a alguém de conhecer a identidade ou nome do remetente. Além de desnecessário, não quero dar a pensar que este artigo seja uma implicância pessoal minha, e sim uma oportunidade para pensarmos melhor sobre como devemos nos apresentar como profissionais. Isto vale para mim, para meus colegas e para o próprio autor da mensagem.
2) talvez o autor desta mensagem chegue aqui e leia meu post. Não quero que considere minha iniciativa como algo pessoal contra ele e acredite, sinceramente, que o que expresso aqui pode ser tomado como dicas para que melhore sua apresentação no futuro. Reitero que ocultei qualquer informação que possa identificá-lo.

Transcrevo a mensagem exatamente como recebi, sem alterar uma vírgula, voluntariamente:

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Para: pcks1@ig.com.br

Prezados Senhores,
Sou norte americano e trabalhei em multinacionais nos E.U.A e Brasil por vários anos como gerente de TI (Tecnologia da Informação), consultoria de TI e desenvolvimento de negócios. Atualmente  sou consultor independente de TI e de negócios.  Estou disponível por alguns meses para fazer traduções (4 hs/dia – Seg a Sex) sobre os mais vários temas e assuntos. A variedade de áreas cobertas deve-se ao fato de ter prestado serviços para empresas de quase todos os segmentos econômicos:   IT, Trade, Financeiro, marketing, siderurgia, petróleo, comércio exterior, químico, farmacêutico, automobilístico, construção civil e telecom.
No caso de interesse, favor entrar em contato para maiores detalhes. (Tenho firma aberta para emissão de Nota fiscal)
Atenciosamente,
Xxxx Xxxxx
tels:
xxxxxx@hotmail.com
skype id: xxxxxxxx
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E estes são os motivos pelos quais considero esta mensagem improdutiva, para não dizer contra-producente, em termos de obter um trabalho ou uma colaboração em um trabalho:

ERRO 1: Para: pcks1@ig.com.br
O remetente criou uma mensagem padrão que enviou para uma mala direta. Isso não faz com que eu, destinatário e possível ofertante de trabalhos, me sinta especial e queira solicitá-lo.
Há hoje métodos eficazes para enviar malas diretas com o nome do destinatário. Mas o ideal mesmo é personalizar um pouco o envio (por exemplo, uma mensagem para cada par de idiomas?)

ERRO 2: Sou norte americano e trabalhei em multinacionais nos E.U.A e Brasil por vários anos (…)
O que eu, antes de mais nada tradutor de francês, tenho a ver com isso? Isto é, por que fui destinatário desta mensagem? E não é apenas o fato de não ter, muito sinceramente, oferta a fazer à pessoa; o problema real é que a falta de foco já sinaliza a falta de seleção e critério de seu autor. Nada promissor para um profissional de tradução.

ERRO 3: (…) trabalhei em multinacionais nos E.U.A e Brasil por vários anos como gerente de TI (Tecnologia da Informação), consultoria de TI e desenvolvimento de negócios. Atualmente  sou consultor independente de TI e de negócios.
Então por que se propõe a traduzir? não há nada na mensagem que qualifique seu remetente como profissional de tradução.
É como se eu dissesse que trabalhei como mecânico e agora quero traduzir manual de auto-peças –não é a mesma coisa!

ERRO 4: Atualmente  sou consultor independente de TI e de negócios.
O que este “atualmente” significa? Palavra inútil, e perigosa: dá ao leitor a impressão que o remetente exerce há pouco tempo aquilo no que se disse experiente.
E não há como alguém que anuncia que vai trabalhar com idioma dizer que não pensou no peso ou na conotação de cada palavra –pois é exatamente isto que faz a diferença para um bom profissional desta área.

ERRO 5: Estou disponível por alguns meses (…)
Que espécie de profissional é esse que resolveu ser tradutor por alguns meses? É como se eu resolvesse hoje ser eletricista por alguns meses. Alguém me contrataria?

ERRO 6: (…) para fazer traduções (4 hs/dia – Seg a Sex)
Tradução é um trabalho de dedicação integral; é excelência ou não é nada. Não estou dizendo (não me entendam mal) que nenhum tradutor tenha que ser escravo do seu trabalho, mas nenhum profissional que conheço impõe (e previamente!) horários de trabalho a seus clientes potenciais. Veja, o escritório é sua casa, ninguém vai ver se você está ou não cumprindo seu ponto. Logo, o tempo disponível para cada trabalho, você administra pessoalmente, oferecendo prazos possíveis para você a seu cliente, ao invés de anunciar que não trabalha mais que 4 horas por dia e não trabalha no sábado e no domingo. Seu cliente não precisa saber se você só trabalha das 22h00 às 4h00, se trabalha nas terças ou não… a única coisa que interessa é: com a sua gestão de tempo, qual prazo você pode prometer? E nada mais.

ERRO 7: (…) os mais vários temas e assuntos.
Variedade é uma coisa bem relativa (os temas apresentados na mensagem não são assim tão variados…). E em tradução, ela pode muitas vezes significar pouca especialização.

ERRO 8: A variedade de áreas cobertas deve-se ao fato de ter prestado serviços para empresas de quase todos os segmentos econômicos: (…)
Mas não se deve a alguma qualquer experiência prévia com tradução.
Inquietante.
Ao invés de mostrar o que o qualifica como profissional confiável, a pessoa apenas indica por que conhece muitos (?) assuntos. Desde quando saber de muita coisa faz da pessoa um tradutor, eu queria saber. Nesta apresentação, nada no histórico do candidato o qualifica como **tradutor**.

ERRO 9: No caso de interesse, (…)
Novamente, se somos “profissionais de idiomas”, devemos pensar no impacto do que dizemos quando tentamos convencer alguém de algo.
Numa perspectiva comercial (e devemos mostrar que sabemos considerá-la), a expressão “No caso de interesse” leva o leitor a pensar na outra alternativa evocada: poder não se interessar. É desnecessário e contra-producente. É um argumento derrotista que já considera a probabilidade de não haver interesse e inclusive sugere esta alternativa ao leitor.
Apresentar-se não é isso. Esta mensagem devia conter apenas três coisas:
1) eu sou fulano de tal e quero trabalhar com tradução
2) minhas qualificações são estas
3) estou à disposição (mas nunca: “caso se interesse”, ou semelhante… uma construção lógica e comercial assumiria que os pontos 1 e 2 já geraram interesse e que isto não é mais uma questão)

ERRO 10: xxxxxx@hotmail.com
Hotmail !!! Que coisa mais anos 90.
Me desculpem, mas qualquer pessoa sensata que recebe uma mensagem impessoal vindo de um hotmail que tenha aparentemente sido enviada para “móga” pensa imediatamente: “céus, spam”. Daí o mouse se move para o botão “excluir” e o dedo treme no botão do mouse muito antes dos olhos quererem ler.
E o problema não é ser webmail. Quem tem uma mínima noção de mercado sabe a diferença de impacto causado entre uma mensagem proveniente do gmail e do hotmail.

ERRO 11: a qualidade, afinal, do texto
Não há, é verdade, nenhuma ofensa fundamental contra o vernáculo. Mas reitero que tradução é um trabalho de excelência e um profissional de idiomas deve conseguir mostrar a perfeição com a qual se expressa, sobretudo quando busca trabalhar neste ramo, pois é esta perfeição que o cliente potencial espera encontrar.
E nesta mensagem, esta série de pequenos defeitos, somados, tornam o todo um texto que sequer convence no quesito integridade linguística:
-nenhum espaço entre cada parágrafo;
-falta de uniformidade: usou TI e IT;
-um monte de espaços duplos;
-erro: maiúscula nos dias da semana;
-parêntese abrindo depois de um ponto (o que para mim é uma brutalidade tipográfica);
-abreviações incorretas: “hs” para horas e “tels” para telefones.

E vocês, contratariam este profissional? :-)

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